domingo, 16 de agosto de 2009

Quando mentem as orelhas




Se o leitor soubesse como são feitas as leis, as lingüiças e as orelhas dos livros, não confiaria em nenhuma delas. Das últimas, pelo menos, tenho um bom exemplo de inconfiabilidade. Trata-se da orelha do livro “Relato de Prócula”, de W. J. Solha. Vou citar para poder ilustrar meus argumentos:
“Sempre houve um mistério na razão da defesa de Jesus feita por Pilatos ante o Sinédrio. E aí, o Padre Martinho Lutero Libório – vigário da paróquia de Pombal, na caatinga paraibana – pergunta-se, depois de fazer o papel do romano na Semana Santa, na capital da Paraíba, se o motivo teria sido, mesmo, um sonho de Cláudia Prócula – mulher do praefectus de Jerusalém – ou algo bem mais poderoso, como o vínculo dele com o Nazareno, agente infiltrado, judeu, mas cidadão de Roma, tal como eram Paulo de Tarso, Flávio Josefo e Filon de Alexandria.

“Este romance inova com essa sua teoria – tão polêmica quanto a do Código da Vinci” – e com a reprodução vívida da até então ignorada vida cultural do interior nordestino, realidade muito distante do universo retratado por obras como Vidas Secas, Fogo Morto ou Grande Sertão:Veredas.”

Saiba o leitor que, depois de ler duas vezes o “Relato de Prócula”, não liguei minimanente para as querelas do autor com as supostas verdades acerca do Cristo histórico. Muito menos considero a teoria do padre Martinho tão polêmica quanto a do best seller davinciano. Para mim, nada disso tem importância e cai para segundo plano quando nos deparamos com a força do personagem principal do romance. Os verdadeiros conflitos do padre Martinho não dizem respeito a questões da história das religiões. O que o padre não consegue superar é o conflito entre sua enorme virilidade sexual e intelectual e os arcaísmos dos dogmas católicos.

O bom mesmo do livro é a viva reconstrução das relações afetivas dos viventes da cidade de Pombal e da fazenda Mundo Novo. Dispensam-se as citações eruditas de livros e filmes, as pretensões filosóficas dos intelectuais do interior. O que nos prende são as paixões represadas, os desejos não ditos, a fome de amor do padre e suas meninas.

Angustiado e culpabilizado por conta da força de seu desejo, o pobre Martinho cai na tentação do suicídio. Mas a poderosa corrente dos amigos, principalmente das grandes mulheres que o cercam, faz com que sua inteligência vença de vez sua culpa e decida viver a plenitude de suas paixões.



Rubens Bentancur, o narrador do romance é, sem nenhum disfarce, o próprio Solha nos prestando contas da refundação de suas raízes na Paraíba. O padre Martinho é o seu alter-ego, aquele que sofre as dores do embate entre o desejo e os dogmas religiosos.

Que o leitor mergulhe sem medo nas páginas caudalosas do “Relato de Prócula”. Se souber navegar com cuidado, vai poder fruir um texto maduro, conduzido com mão segura, produzindo sonoridades que a orelha do livro não ouviu. Como nesta passagem em que o padre Martinho, depois de passar a noite no terraço da casa-sede de sua fazenda agarrado a um livro de memórias de Pôncio Pilatos, levanta-se “ao ouvir os primeiros cocoricós, balidos e mugidos em lugar dos cricrilos, coaxares, além de voos de corujas, morcegos e tetéus...” Isto é pura sonoplastia, esperando o momento em que o livro vire filme. Coisa fácil de fazer pelas mãos plurais do artista W. J Solha.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Fora dos eixos



Ronaldo Monte, autor do romance "Memória do fogo", é psicanalista. Daí o dom, louco, de um de seus personagens, de ver as pessoas "por dentro". Daí o trabalho seguro, do romancista, com os complexos de Édipo e Eletra, que vemos em belos personagens como Massapê e Joana Darque. Daí, talvez, o prazer que nos proporciona sua escrita, no que nos passa sua visão sombria de um mundo "out of joint", como diz Hamlet, num texto luminoso. Freud era um grande escritor. Alguns livros dele, como "Psicopatologia da vida cotidiana", são excelentes realizações literárias. Ronaldo Monte, romancista, também herda do Dr. Ronaldo Monte o conhecimento da alma humana e a precisão no uso das palavras. "Pois este corpo de menina parece que não está dando mais em mim", diz - fascinantemente - uma de suas criaturas. "Se soubesse a palavra eriçado, estaria eriçado", o ficcionista diz, soberbamente, de outro vivente seu.

Somente alguém que convive com a Sombra de cada um de nós poderia dizer, com pleno conhecimento de causa, que "é cada vez mais feio o que vejo dentro das pessoas". Mas Ronaldo Monte faz, do relato do que vê, sua obra de arte, buscando, talvez, a sublimação do que vive em seu dia a dia, antes mesmo da aristotélica catarse de seus leitores. E o elemento essencial do instrumento que escolheu para isso, a palavra, ele a usa com brilho, criando um ambiente primitivo e místico, exacerbado pelo uso estratégico de orações do livro de São Cipriano, o que termina por dar ao seu trabalho um tom, frequentemente, de realismo mágico. "Tua mãe morreu de novo, menino. Vai chamar teu pai."

"Memória do fogo", apesar de suas poucas cento e vinte e três páginas, não tem pressa alguma de nos levar ao seu final. Avança lento, com estórias soltas que, aos poucos, vão se entrelaçando, até que tenhamos as sagas de seis homens e de uma mulher que se reúnem misteriosamente ao redor das chamas, cada um reconhecendo no outros os pares de seu sofrimento. O fogo, evidentemente, é o elemento que funde essas narrativas, como quando a donzela pobre - Joana Darque (nome da santa que morre na fogueira)- sonha com um homem que lhe dê um fogão a gás, ou quando entramos - no capítulo "Massapê" - na oficina do oleiro, onde uma leva de cerâmicas é trabalhada no forno.

Um livro estranho. Com material de primeira para discípulos e dissidentesde Freud. A Objetiva marcou um tento com sua série "Fora dos eixos". Marcou outro ao levar ao país mais esse rebento da nova literatura nordestina e, mais precisamente, paraibana.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A oficina no porão





Sérgio Castro Pinto


Desde há muito existe uma espécie de discriminação com o Regionalismo. E eu não tenho dúvidas: é mais uma estratégia de parte da crítica preconceituosa do sudeste para desqualificar um movimento que foi quem melhor respondeu aos anseios de se responder ao Brasil a partir do Brasil. Quem, depois de 1930, superou, em termos de qualidade, a ficção brasileira de 1930? Guimarães Rosa? Mas, o próprio Rosa se abeberou, e muito, do regionalismo. No entanto, para muitos, o Regionalismo acabou. Acabou coisa nenhuma! Nenhum assunto se esgota, a não ser que não se tenha engenho e arte para se inovar, através do estilo, avesso a clichês, jargões e chavões.. E chego ao que eu quero: Ronaldo Monte. É regionalista? É. Mas de um regionalismo da alma que, ao fim e ao cabo, termina em se transformar universal.Existe uma história de Jung segundo a qual o homem tem medo do porão. E realmente tem, pois, afinal de contas, o porão é subterrâneo, é a ausência do sol, é um mundo impregnado de sombras, de objetos imprestáveis, heteróclitos, desencontrados, faltos de tudo e de todos.Daí, ainda segundo Jung, o homem preferir o sótão em função do seu medo, pois o sótão é o consciente, o mundo claro, solar, onde tudo é bem visível, previsível e definido.E tanto é assim que o próprio Jung arremata: "A consciência se comporta então como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar que aí não há ladrões e que, por conseqüência, o barulho era pura imaginação. Na realidade esse homem prudente não ousou aventurar-se ao porão".Em outras palavras, no sótão - reduto do consciente - o homem não só racionaliza os seus medos como cria mecanismos de defesa para melhor combater os seus fantasmas, fobias, neuroses e angústias, ao passo que no porão - reduto do inconsciente - a "racionalização é menos rápida e menos clara".Ronaldo Monte montou a sua oficina de escrever no porão. E, como bom e ousado psicanalista que é, escreveu a partir daí o excelente "Memória do fogo" (Editora Objetiva Ltda, Rio de Janeiro, 2006), cujos personagens, "Precocemente fracassados, perdidos em algum ponto do Nordeste Brasileiro - conforme bem o diz Rosa Amanda Strausz -, perderam-se também do fio que conduz à vida. Em volta do fogo, partilham apenas da cachaça, água que queima". Os estranhíssimos viventes de Ronaldo são sombras que só ardem e "brilham" ao pé das fogueiras acesas. E embora de carne e osso, parecem fantasmas saídos de um livro-porão: este "Memória do fogo", um dos grandes lançamentos do ano de 2006.


Jornal O Norte, 5 de outubro de 2006.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Morta


Morta, sim. Dona Mocinha sabia que aquela ali não vivia mais. Uma alma veio avisar a ela no meio de um cochilo que deu. Esperou o menino acordar e contou: dessa vez tua mãe morreu de verdade, menino. Vai acordar teu pai.
Espero que dessa vez seja pra sempre. Não agüentava mais essa mulher, com aqueles achaques, com aqueles desmaios, com aquela invenção de morrer de vez em quando para acordar depois de muito tempo como se nada tivesse acontecido. E não contava nada a mim, que era seu marido. Vinha do outro mundo sem novidade, sem ter visto um parente, sem um palpite pro jogo do bicho. Uma inutilidade cada morte daquela. Acho bom mesmo que tenha morrido. Assim me caso de novo com uma mais nova que cuide melhor de mim. Porque homem não pode viver sem mulher. E sem mulher eu já vivia por muito tempo. Quando não estava morta, era uma morta-viva. Mal fazia um café, mal cozinhava um feijão, mal lavava uma roupa, mal me servia na cama. Bom que tenha morrido. E esse caixão aqui é muito caro. Pra que caixão bonito? se no fim vai pro fundo da terra, onde ninguém vai ver. E se morreu mesmo, pra que passar a noite em claro no velório? Antes do fim da tarde mesmo eu enterro. Amanhã tenho que cortar lenha na mata e começar a procurar outra costela pra me esquentar.
E assim foi feito. A tarde mal se entregava às primeiras sombras e lá vinham eles do cemitério. A noite mal sorvia os últimos sangues da tarde quando entravam em casa. O pai para o quarto, mudar de roupa e sair para procurar moça. O filho para a rede onde morrera a mãe, para sentir pela última vez o cheiro dela. Dona Mocinha para a cozinha fazer café, beber uma caneca e deixar o bule esquentando nas brasas do fogão. Pegou a sacola com as suas coisas e foi embora sem falar palavra.
Dona Mocinha não dormiu direito. Ficou revirando na cama até o primeiro galo. Até ouvir a voz assustada de Darque contar: Vó, aquela mulher não morreu não, vó. Ela foi enterrada viva. Ela mesma veio me dizer agora mesmo. Disse que está virada de banda no caixão e que a gente avisasse ao povo dela. Dona Mocinha enfiou um vestido por cima da combinação com que havia dormido, prendeu os cabelos com uma marrafa e disparou para a casa dos parentes da morta, da enterrada viva, para que mandassem abrir o caixão. Podia ser que ainda encontrassem a defunta com vida.
Ainda de longe da casa da morta, a mulher foi gritando para quem pudesse ouvir: valha-nos Deus, acudam por Nossa Senhora. Que gritaria é essa? falou com raiva o viúvo. Quando Dona Mocinha contou o que tinha ouvido da neta, o homem baixou a vista, ficou calado um tempo e depois saiu andando ligeiro. O menino, esfregando os olhos de sono, foi atrás. Não foi junto do pai, pois tinha medo daquela cara cerrada e daquele passo apressado, de calcanhar fincado no chão. Meio de longe, viu o pai parar na porta do coveiro e mandar o homem lacrar com tijolo e cimento a cova da mulher. Dessa vez ela vai ficar morta para sempre. Nunca mais ninguém tira ela de lá.
O menino sentiu um gelo tomar conta do seu corpo. Parecia que ele agora ia morrer como a mãe. Mas não quis. Não deixou que a morte tomasse conta do seu corpo. Disparou na carreira, mas não, por ali não, por ali ia passar no cemitério. Voltou e embalou em direção à mata, os pés batendo na bunda de tanto que corria. Não olhou pra trás, não queria ver o pai, não queria mais ver aquele fim de mundo onde a mãe morria. Não sabia, nem pensava para onde ia. Correu até não agüentar a falta de ar no peito. Foi diminuindo a carreira, passou a andar com pressa, depois caminhou devagar até que só podia mesmo arrastar os pés. Então ele caiu sentado na beira da mata e chorou um choro pra ninguém. Era pra si mesmo que chorava. E era um choro bom que o botou pra dormir.

Imagem obtida em www.portinari.org.br

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Rosa Amanda Strausz: a prosa de Ronaldo Monte


Cinco homens e uma mulher se reúnem em torno da fogueira. O mesmo gesto repetido há milênios pela humanidade. Ao fogo entregamos nossas indagações e perplexidades. Das chamas partilhadas saíram nossas crenças e mitos, nossa história e nosso conhecimento. Para os seis que ali se reúnem, no entanto, não existe grandiosidade. Nem esperança. São jovens, mas não conseguiram atravessar a ponte que separa a infância da vida adulta. Precocemente fracassados, perdidos em algum ponto do Nordeste brasileiro, perderam-se também do fio que conduz a vida. Em volta do fogo, partilham apenas a cachaça, a água que queima.
É para a miséria humana que se dirige a atenção de Ronaldo Monte em sue romance de estréia. Para as dores que atravessam o tempo e permanecem inexplicáveis. Para o sofrimento exaustivamente investigado por filósofos, poetas, cientistas, e jamais compreendido.
A prosa de Ronaldo Monte mistura a psicanálise e o catimbó, a filosofia e a tradição oral, o erudito e o popular, numa surpreendente teia de relações. Na Memória do Fogo, tudo arde – a começar pelo olhar do autor, que constrói amorosamente suas personagens, como se todas fizessem parte de uma mesma irmandade. E é nela que nos envolvemos ao iniciar a leitura. Como que hipnotizados pela luminosidade de uma fogueira primitiva, como que também embriagados pelo poder da palavra do romancista.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Sérgio Rodrigues: Ronaldo Monte: ‘Memória do fogo’


“Memória do fogo” (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou “O vôo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende, e “Voláteis”, de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, “buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo”. O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do “eixo” anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o resultado da coleção tem sido mais que animador. “Memória do fogo” não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.
Leia mais em Todo Prosa 24/06/06 12:01 AM

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Estação



Ali, na estação, a vida parecia uma mágica. A plataforma amanhecia vazia de gente e de coisas. O chefe da estação, com sua farda de mescla azul e o boné bem assentado na cabeça, abria o armazém, dava ordens para o encarregado e ia sentar perto da janelinha de onde vendia os bilhetes de papelão, parecidos com pedras de dominó. Ida, só uma cor. Ida e volta, duas cores, metade verde, metade na cor natural do cartão. O toc-toc curioso do telégrafo, com aquela fita de papel cheia de furos. A cabeça meio inclinada do telegrafista, seu olhar distante como se visse a outra pessoa que mandava a mensagem. Aquele toc-toc era a voz das letras que se somavam em palavras. Aquilo sim, era um dos grandes mistérios da vida. As palavras vinham pelo fio, cortadas em pedaços que um homem juntava de novo na penumbra do escritório da estação.Aos poucos, iam chegando os vendedores. Tabuleiros com laranjas descascadas, cocadas brancas e queimadas, pirulitos enfiados nos buraquinhos da tábua, difíceis de desgrudar do papel. Água fria nas quartinhas, pão doce, pão sovado, bolo de goma. Encostados na parede ou sentados no chão, ficavam por ali, meio calados, na espera. Lá pelas oito e meia iam chegando os viajantes. Famílias inteiras em roupa de passeio, caixeiros em ternos amassados, soldados da polícia, casais de olhares tristes, velhotes engomados, senhoras empoadas. Com o passar dos minutos um certo nervosismo vai aos poucos tomando conta da plataforma. As conversas se apressam e as vozes se alteiam, os casais andam pra lá e pra cá, os velhotes tossem, as senhoras suspiram, os caixeiros passam lenços amassados nos rostos suados, soldados olham para os lados em espreita. Os vendedores se impacientam. Os em pé trocam as pernas que se apóiam na parede. Os sentados arrastam os calcanhares no chão, subindo e descendo os joelhos. É o trem que vem vindo. Ninguém ainda vê, nem se ouve o apito. Mas é a hora que chega. Antes do trem vem o tempo que antecipa os adeuses, os cuidados, os recados, os mandares de lembranças. Antes do trem vem a angústia de quem vai ou fica. Lá vem, alguém grita, e estoura o alvoroço. Os vendedores entram em prontidão e começam a gritar os seus refrões muito antes do trem chegar na estação. Ninguém sabe muito bem o que fazer, mas todo mundo quer fazer alguma coisa. Gestos descabidos, palavras desconexas, olhares fugidios, toda uma série de atos sem sentido, que só vão querer dizer alguma coisa quando o trem partir as correntes que amarram os que vão e os que ficam.(...) Maletas e pacotes não se despedem, não juram amor, nem mandam recados. As caixas e sacos, arrumados no vagão de cargas, deixam menos saudades ainda. Daqui a pouco, quando o trem virar a primeira curva, o silêncio varrerá os sentimentos da plataforma. O toc-toc do telégrafo será a única presença do mistério das palavras.

Do romance Memória do fogo. Editora Objetiva, 2006
Ilustração recolhida em
http://www.sergiosakoll.com.br/

Massapê




O oleiro achou engraçada aquela figura que andava por cima da ribanceira do rio com uma das mãos estendida levando alguma coisa que não sabia ainda o que era. Parou a roda do torno com o pé, e ficou esperando. A figura veio vindo, veio vindo e se mostrou um menino já meio taludo, as calças curtas molhadas, com um montinho de massapê na mão estendida, como quem pede esmola.O menino ficou assim por um bom tempo, até que os seus olhos chegados da luz se acostumassem às sombras daquele lugar. Um teto de telhas escuras vai se abaixando até ficar quase da altura de um homem. No meio do calor do meio-dia, ali fazia uma friagem gostosa que vinha do monte de barro molhado descansando no chão. Montadas nas prateleiras, arrumadas nos cantos das paredes, muitas, muitas peças ainda cruas, curando, perdendo a água que ainda lhes resta, esperando a vez da sua fornada. Dependendo de onde vinha, o cheiro era diferente. Do monte de barro molhado vinha um cheiro parecido com o que ele sentiu lá na beira do rio. Do lado da parede onde descansavam as peças o cheiro era seco, lembrando alumínio. Juntando tudo, o cheiro do lugar lembrava o da cozinha da sua casa. Faltava o cheiro da comida. Mas o cheiro das cinzas por debaixo das panelas de barro em cima do fogão da sua casa estava ali. O menino só não sabia onde. E ficou meio perdido nesse cheiro, nessa quase catinga que morava no fundo da sua memória e se mudava para ali.
Tu qué o quê, Massapê?O senhor deixa eu cozinhar esse peito no seu forno? Que história de peito é essa, Massapé? Isso é somente um pedaço de barro. Não é não, o senhor vai ver. Botou a porção de barro na roda de cima do torno, sentou afobado no banco alto de madeira e tentou alcançar com o pé direito a roda de baixo. Mas a perna era curta, ficou remando no ar. O oleiro teve vontade de rir, mas não riu. Trabalhe só com as mãos, pode ser que saia alguma coisa que preste. E se afastou em direção à sua casa ali perto, como se procurasse não se sabe o quê.O menino olhou para a massa, agoniado. Não sabia o que poderia fazer com o peito de barro da sua mãe. Deixou então que suas mãos trabalhassem sozinhas, que batessem e amassassem o barro para que o ar saísse das bolhas, até que ele ficasse macio; que catassem na massa os grãos de areia, os restos de mato ou qualquer outra sujeira; que fossem apertando o barro entre os dedos e as palmas, beliscando a massa, arredondando com cuidado suas bordas, passando água por dentro e por fora para ficar lisinho, até que tinha entre as mãos uma tigela em forma de peito.


O oleiro voltou quando sentiu que o menino tinha acabado sua obra. O que é isso agora, perguntou. É o mesmo peito de minha mãe, só que agora eu vou poder mamar nele. Tudo que eu beber daqui em diante vai ser nessa tigela que eu mesmo fiz com o peito que eu trouxe de dentro da terra, de um lugar em que minha mãe sofria de agonia e eu saí de lá deixando ela morrer em paz. Aí ela me deu esse peito, para que eu sempre me lembre dela, para que eu carregue pro resto da vida essa parte do corpo que ela nunca me deu.E nele eu vou beber o leite que minha mãe me negou, que meu pai enterrou, que a terra engoliu, que o barro me devolveu. E foi com essas minhas mãos que eu botei de novo no mundo o peito que o mundo me levou.

Do romance Memória do fogo. Editora Objetiva, 2006.

Virar moça




Uma vez, uma mulher do riacho perguntou meio debochada: tu já virou moça, menina? Não sabia o que era virar moça. Sabia naquela hora que não podia ser uma coisa boa, pois todas as mulheres pararam de areiar as panelas para rir de minha cara encabulada.Virar moça, virar moça... Minha mãe devia saber o que era, pois me contava histórias de homem que vira lobisomem, de mulher de padre que vira mula-sem-cabeça, de mulher corcunda que vira serpente quando fica velha. Quando cheguei em casa, fui direto pra cozinha e disse: mãe, uma moça do riacho perguntou se eu já tinha virado moça. Eu já virei? Ainda não, respondeu ela. Quando virar, você mesma vai saber. Agora vai cuidar de tuas coisas que eu tenho mais o que fazer.Virar moça... O nome da minha vó é Dona Mocinha. Mas não acho que a mulher do riacho perguntou quando é que eu vou ficar velha. Ela perguntou se eu já tinha virado moça. Moça, que eu saiba, é uma mulher nova que ainda não chega a ser mulher. As moças que eu conheço têm mais corpo do que eu, têm as pernas mais grossas, a cintura mais fina e têm os peitos grandes. Os meus ainda não nasceram. A não ser que eu chame de peito esses carocinhos que estão aparecendo. Um dia eu vinha do riacho com o vestido molhado colado no corpo e um homem safado que bebia cachaça no balcão da venda gritou: olha as pitombinhas dela. Daqui a pouco ela vira mulher. Aí é que eu fiquei embaraçada. A mulher do riacho diz que vou virar moça. O homem da venda diz que vou virar mulher. Alguma coisa, na certa, estou virando. Pois este corpo de menina parece que não está dando mais em mim.Ai esse corpo que não se aquieta. Esse formigamento nas pernas, essa agonia nas juntas, essa vontade de chorar não sei por que. Ai essa vontade de gritar, de cantar, de ficar muda pelos cantos. Ai esse calor que não passa, esse suor leitoso nessa cama que ficou pequena pra meu corpo. Ai essa coisa molhada e peguenta entre minhas pernas. Meu Deus, eu me cortei? Alguma coisa se rasgou dentro de mim? Que sangue é esse que sai do meio de minhas coxas? Mãe, me acuda, me acuda minha mãe, que eu estou sangrando.A mãe chegou, me entregou uma toalhinha e disse sem olhar na minha cara: bota isso entre as pernas. Não tome banho frio, não faça trabalho pesado, não fique muito no sol, não passe nem perto de um pé de limão. Agora você virou mulher, já pode ter filho.Então, o homem da venda ganhou. Minha mãe disse que eu virei mulher. Mas eu queria ter virado moça. Queria ter peito grande, duro. Queria ter coxa grossa, cintura fina. Queria ir no cinema, namorar, dançar bolero. Mulher, eu não queria ser não. Mulher é feia, tem peito mole de tanto dar de mamar aos filhos.Não tem cintura de tanto que pariu. Mulher não sai da cozinha, não se penteia, não dá passeio. Mulher é uma coisa triste. Eu não. Eu quero ser moça.
Do romance Memória do Fogo. Editora Objetiva, 2006.