sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Meu mestre cearense
Não sei o que fiz pra merecer tanta consideração da parte de Nilto Maciel. Nós nunca nos vimos, nunca trocamos uma palavra que não fosse por e-mail, não tenho deztões da competência que ele tem pra escrever um conto, muito menos um romance louco como Carnavalha. Mesmo assim, o Nilto vive me cobrindo de gentileza. No ano passado, me mandou os dois volumes dos seus Contos Reunidos. Mês passado, sempre pelas mãos do seu cupincha Pedro Salgueiro, me mandou o tal romance desvairado e o seu último livro de contos, Luz vermelha que se azula. Os contos, devorei em uma tarde. O livro demorou mais um pouco: dois dias.
A gentileza dada não se olha os dedos, diz a sabedoria eqüina. Mas mesmo assim procuro um motivo para os desvelos do Nilto Maciel. E encontro um, mesmo que saiba que não é esta sua intenção. Nilto me ensina a escrever. Cada palavra sua, cada frase, é uma lição de competência e propriedade. Seus personagens são de carne, de ossos e de sonhos. Suas paisagens passam a viver em nós, como lugares em que devíamos ter vivido. Com Nilto Maciel, parte-se do plausível para o delírio como quem pisca.
Que Nilto Maciel aceite que o adote como um irmão mais velho e mais sábio. Um irmão que nunca vi, mas que aprendi a amar com o amor que se transfere para quem escreve as palavras que amamos.
Tive muitos professores que me transmitiram o pouco que sei e aos quais sou devidamente grato. Mas tive poucos mestres. Uns três, talvez. Estes me ensinaram a pensar, a sentir, a viver e a deixar as marcas da minha passagem pelo mundo. A estes mestres queridos, vem agora se juntar Nilto Maciel, que me ensina a refinar o trato com as palavras. Que me mostra como se urdem os barbantes da realidade com os fios de seda dos delírios para tecer um texto que comprometa e fascine quem o lê.
Se de agora em diante eu passar a escrever melhor, podem ficar certos de que o mérito é deste meu mestre do Ceará.
domingo, 6 de março de 2011
A tecelagem noturna
Novas considerações sobre o poeta dormindo
(Versão abreviada)
Ronaldo Monte*
O poeta João Cabral de Melo Neto tinha 21 anos quando apresentou ao Congresso de Poesia do Recife, em 1941, as suas Considerações sobre o poeta dormindo . Ali, tentava falar das relações secretas, suspeitas, entre o sono e a poesia. O sono como fonte do poema. O poeta estava impressionado pela freqüência com que os críticos e poetas da época falavam e se preocupavam com o sonho. Dos estudos contemporâneos de psicologia às seções de jornais e revistas dedicados à “interpretação dos sonhos” as aplicações práticas que se faziam da produção onírica, sem nenhuma humildade, deixavam no completo esquecimento o mistério do sonho, a sua sombra.
O poeta não concordava com a dupla atitude comum aos homens do seu tempo, atitude “de quem come o sonho e de quem é comido pelo sonho”. João Cabral se refere ao sonho como uma obra de arte. Uma coisa sobre a qual se pode exercer uma crítica. O sonho é uma obra nascida do sono, feita para nosso uso. Uma coisa que pode ser evocada, que pode ser explorada através da memória. “Um poema que nos comoverá todas as vezes que sobre nós mesmos exercermos um esforço de reconstituição”. O sonho é uma obra em si, totalmente cumprida. Entretanto, por mais que esta experiência fabulosa que se assiste possa ser evocada, narrada, dificilmente pode ser transmitida. Isto por conta de seu parentesco com a poesia. Mais ainda, em virtude da própria poesia que o sonho traz consigo.
Interessa agora ao poeta isolar o estado de sono do fenômeno do sonho para depois verificar o que o sono tem a ver com o poeta e a poesia. Pois, ao contrário do sonho, o sono é uma aventura que não se conta, que não pode ser documentada. Uma aventura da qual se volta de mãos vazias. O sono é como um poço em que estamos ao mesmo tempo mergulhados e ausentes. E esta ausência nos emudece. Numa espécie de relação de causa e efeito, o sono não só provocaria o sonho, tendo-o como sua linguagem natural: o sono condiciona o sonho emprestando as dimensões e os ritmos de escafandristas às coisas que no sonho se desenrolam diante de nós. É o sono ainda que molda aquelas distâncias, que nos faz assistir certos acontecimentos contra os quais não podemos agir de nenhum modo, em que somos invariavelmente o preso, o condenado, o perseguido.
João Cabral agora se atreve a uma sutil fenomenologia, procurando estabelecer uma semelhança entre os elementos que compõem o clima do sonho, - um clima de tempestade, como o da poesia -, e a imagem da aparência do homem adormecido. Tanto os acontecimentos do sonho como o homem que dorme estariam profundamente marcados pela presença mesma do sono. Uma presença que não seria apenas a negatividade da vigília, mas marcada pela visão de um território desconhecido, um lugar onde somos estrangeiros e de onde “voltamos pesados, marcados por essa nostalgia de mar alto, de ‘águas profundas’...”
Território estranho, este, o do sono; mais estranho ainda por se localizar dentro de quem dorme. A atitude do corpo de quem dorme, “nessas poses não raro trágicas (irônicas), nas palavras que se quer balbuciar”, na fisionomia mesma de quem dorme podemos adivinhar “os sinais de uma contemplação, e que é, sob outro aspecto, um sinal de vida”. Quem dorme, digo eu, contempla o chão do sono. Arrisco-me a dizer que este chão é a verdadeira pátria do estrangeiro, desse outro estranho a quem assistimos desde o nosso posto de contemplação. Daí a nostalgia do mar alto, das águas profundas que trazemos de volta ao acordar. Que estranho este que dorme em nós.
(Versão abreviada)
Ronaldo Monte*
O poeta João Cabral de Melo Neto tinha 21 anos quando apresentou ao Congresso de Poesia do Recife, em 1941, as suas Considerações sobre o poeta dormindo . Ali, tentava falar das relações secretas, suspeitas, entre o sono e a poesia. O sono como fonte do poema. O poeta estava impressionado pela freqüência com que os críticos e poetas da época falavam e se preocupavam com o sonho. Dos estudos contemporâneos de psicologia às seções de jornais e revistas dedicados à “interpretação dos sonhos” as aplicações práticas que se faziam da produção onírica, sem nenhuma humildade, deixavam no completo esquecimento o mistério do sonho, a sua sombra.
O poeta não concordava com a dupla atitude comum aos homens do seu tempo, atitude “de quem come o sonho e de quem é comido pelo sonho”. João Cabral se refere ao sonho como uma obra de arte. Uma coisa sobre a qual se pode exercer uma crítica. O sonho é uma obra nascida do sono, feita para nosso uso. Uma coisa que pode ser evocada, que pode ser explorada através da memória. “Um poema que nos comoverá todas as vezes que sobre nós mesmos exercermos um esforço de reconstituição”. O sonho é uma obra em si, totalmente cumprida. Entretanto, por mais que esta experiência fabulosa que se assiste possa ser evocada, narrada, dificilmente pode ser transmitida. Isto por conta de seu parentesco com a poesia. Mais ainda, em virtude da própria poesia que o sonho traz consigo.
Interessa agora ao poeta isolar o estado de sono do fenômeno do sonho para depois verificar o que o sono tem a ver com o poeta e a poesia. Pois, ao contrário do sonho, o sono é uma aventura que não se conta, que não pode ser documentada. Uma aventura da qual se volta de mãos vazias. O sono é como um poço em que estamos ao mesmo tempo mergulhados e ausentes. E esta ausência nos emudece. Numa espécie de relação de causa e efeito, o sono não só provocaria o sonho, tendo-o como sua linguagem natural: o sono condiciona o sonho emprestando as dimensões e os ritmos de escafandristas às coisas que no sonho se desenrolam diante de nós. É o sono ainda que molda aquelas distâncias, que nos faz assistir certos acontecimentos contra os quais não podemos agir de nenhum modo, em que somos invariavelmente o preso, o condenado, o perseguido.
João Cabral agora se atreve a uma sutil fenomenologia, procurando estabelecer uma semelhança entre os elementos que compõem o clima do sonho, - um clima de tempestade, como o da poesia -, e a imagem da aparência do homem adormecido. Tanto os acontecimentos do sonho como o homem que dorme estariam profundamente marcados pela presença mesma do sono. Uma presença que não seria apenas a negatividade da vigília, mas marcada pela visão de um território desconhecido, um lugar onde somos estrangeiros e de onde “voltamos pesados, marcados por essa nostalgia de mar alto, de ‘águas profundas’...”
Território estranho, este, o do sono; mais estranho ainda por se localizar dentro de quem dorme. A atitude do corpo de quem dorme, “nessas poses não raro trágicas (irônicas), nas palavras que se quer balbuciar”, na fisionomia mesma de quem dorme podemos adivinhar “os sinais de uma contemplação, e que é, sob outro aspecto, um sinal de vida”. Quem dorme, digo eu, contempla o chão do sono. Arrisco-me a dizer que este chão é a verdadeira pátria do estrangeiro, desse outro estranho a quem assistimos desde o nosso posto de contemplação. Daí a nostalgia do mar alto, das águas profundas que trazemos de volta ao acordar. Que estranho este que dorme em nós.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Escrever é me destilar
Entevista concedida ao jornalista Carlos Herculano Lopes, do jornal "Estado de Minas"
1) Por que só estrear no romance agora, com quase 60 anos?. Foi proposital, ou foi deixando as coisas irem acontecendo?
Não sou eu que estou estreando no romance quase aos sessenta. O romance é que só está sendo publicado agora. Entre 1990 e 91, eu estava em Campinas fazendo um doutorado quando comecei a ser atormentado pela idéia central do texto. Comprei um caderno e comecei a fazer anotações, construir um roteiro, moldar os personagens. Imagine você ter que estudar psicanálise, filosofia, alemão, com um bando de cachaceiros se mexendo na sua cabeça. A história não deu trégua e foi se fazendo. Estava pronta há uns cinco anos. Mas como eu não queria mais uma “edição do autor” e não aparecia oportunidade de furar o mercado nacional, o texto foi sendo revisado, comentado por gente de confiança. Acho que esse tempo de espera fez bem ao livro.
2)Qual é a história que você conta em Memória do fogo? Como foram construídos seus personagens?
O argumento central é simples: um grupo de cachaceiros, totalmente vividos pela embriaguez, se juntam num determinado lugar para entrar em combustão espontânea. O que eu fiz foi acompanhar a trajetória de cada um desses homens desde a meninice até o momento do encontro. Estabeleci que cada um deles teria uma profissão ou uma experiência marcante ligada ao fogo. Mas logo no primeiro capítulo apareceu uma mulher com uma filha no colo. O nome da menina é Darque, Joana Darque, e vai cruzar com cada um destes homens ao longo da narrativa. No final das contas, a história que eu conto é a das pessoas que são lançadas no mundo em completo desamparo e não conseguem construir suas vidas. São devorados pelo fogo do álcool que toma conta de suas memórias. Antes, lhes empresta uma memória construída em torno de quase cinzas. No final, o fogo é como um deus benevolente que consome seus filhos a partir do dentro de seus corpos. Como uma graça por haverem se embebido da água ardente. Podem pensar que fui cruel com meus personagens. Mas eu fui misericordioso.
3)Com este livro você passa a integrar a coleção Fora do Eixo, da editora Objetiva. Como é fazer literatura em Alagoas? Até que ponto viver fora do "eixo" pode influenciar na vida de um escritor?
Primeiro, uma correção. Nasci em Maceió, mas fui com onze anos para o Recife e vim para a Paraíba aos trinta anos, ensinar na UFPB. Eu faço literatura na Paraíba. Não vejo muita diferença em fazer literatura aqui ou em qualquer lugar do País. A diferença está na oportunidade de publicação. Mesmo assim, sei que nem todo escritor do “eixo” está dentro do “eixo”. O “eixo” é o mercado. Já apareceram algumas vozes classificando o meu texto como regionalista. Acho que esta questão está superada. De uma forma ou de outra, todos somos regionalistas. O escritor que conta as tramas de um quarteirão da avenida Paulista ou de uma favela do complexo do Alemão está, a seu modo, sendo regionalista. No final das contas, falamos todos de uma região virtual que nos habita e nos constrói. Ela é composta dos lugares em que vivemos, das pessoas que roçamos, dos livros que lemos, dos quadros que vimos, dos filmes ou novelas que vemos. Esta região nos acompanha e exige que falemos dela.
4) Literatura e psicanálise caminham juntas? Até onde você deixa o psicanalista interferir nos seus textos literários?
Comecei a escrever antes de me tornar psicanalista. Cometi poemas ainda menino. Mais tarde fui redator de propaganda, no Recife. Afiei meu texto a soldo. Aos poucos fui tentando o texto curto, uma crônica aqui, um conto ali, alguns texto inclassificáveis que teimavam em continuar poemas. Foi a psicanálise que cafetinou minha escritura. Meus textos acadêmicos são palatáveis, o que não quer dizer que sejam de fácil digestão. É natural que, ao saber que sou psicanalista, as pessoas procurem e achem no meu texto referências ao Édipo, à castração, etc. Mas até onde eu saiba, não procuro deliberadamente tratar de temas psicanalíticos. Mas como nada do que é humano é estranho à psicanálise, é natural que os personagens vivam certos temas visados pelo saber psicanalítico. Só não posso negar que minha forma específica de escuta, marcada por uma neutralidade benevolente, influencia o modo como permito que os personagens se expressem, como consigo sintonizar com seus sentimentos, numa espécie de identificação que aprendi a usar no consultório.
5)Quais são os escritores que você tem como referência? Se sente diretamente influenciado
por algum deles?
Tenho lacunas enormes na minha formação literária. Minha família não tinha tradição de leitura e tive que me virar sozinho. Mas lá em casa tinha uma coleção do Tesouro da Juventude que foi a minha salvação. Comecei com José Lins do Rego de quem tomei emprestado o imaginário rural. Pois sou um nordestino urbano do litoral, um caranguejo, como disse Gilberto Freire. Depois vieram Machado de Assis, Graciliano, Guimarães Rosa. Mário de Andrade quase todo e um pouco do Oswald. Tem os poetas, também os básicos. Bandeira, Vinicius, Drumond, Murilo Mendes. Enfim, o serviço militar obrigatório, e a passagem também obrigatória por Fernando Pessoa. Tem as mulheres também. Clarisse e Adélia. Li e leio o que me cai nas mãos. Thomas Mann, Günter Grass, Antonio Callado. Dos pernambucanos, além do texto de Gilberto Freire, tive muita influência de Hermilo Borba Filho. Passei um tempo querendo ser o João Ubaldo. Agora, o texto que mais me espantou foi o de Saramago. Li o “Memorial do convento” numa edição da Difel, muito antes dele se tornar famoso por aqui. Mais recentemente, ando encantado pela narrativa de Ítalo Calvino. Gostaria de ter a delicadeza dele. Mas não gostaria de ser tomado como epígono de ninguém.
6)Para o que você acha que serve a literatura? O que o ato de escrever significa para você?
Mesmo correndo o risco do lugar comum, acho que a literatura serve para nos tornar mais humanos. Lendo ou escrevendo, estamos exercitando certas possibilidades de ser que muitas vezes nos são inacessíveis no cotidiano. Sempre digo que sou bem melhor por escrito. Somos todos muito destabanados no calor da refrega. Escrevendo, somos mais cuidadosos com as palavras, temos tempo para medir sua densidade. Escrever, para mim, é me destilar.
1) Por que só estrear no romance agora, com quase 60 anos?. Foi proposital, ou foi deixando as coisas irem acontecendo?
Não sou eu que estou estreando no romance quase aos sessenta. O romance é que só está sendo publicado agora. Entre 1990 e 91, eu estava em Campinas fazendo um doutorado quando comecei a ser atormentado pela idéia central do texto. Comprei um caderno e comecei a fazer anotações, construir um roteiro, moldar os personagens. Imagine você ter que estudar psicanálise, filosofia, alemão, com um bando de cachaceiros se mexendo na sua cabeça. A história não deu trégua e foi se fazendo. Estava pronta há uns cinco anos. Mas como eu não queria mais uma “edição do autor” e não aparecia oportunidade de furar o mercado nacional, o texto foi sendo revisado, comentado por gente de confiança. Acho que esse tempo de espera fez bem ao livro.
2)Qual é a história que você conta em Memória do fogo? Como foram construídos seus personagens?
O argumento central é simples: um grupo de cachaceiros, totalmente vividos pela embriaguez, se juntam num determinado lugar para entrar em combustão espontânea. O que eu fiz foi acompanhar a trajetória de cada um desses homens desde a meninice até o momento do encontro. Estabeleci que cada um deles teria uma profissão ou uma experiência marcante ligada ao fogo. Mas logo no primeiro capítulo apareceu uma mulher com uma filha no colo. O nome da menina é Darque, Joana Darque, e vai cruzar com cada um destes homens ao longo da narrativa. No final das contas, a história que eu conto é a das pessoas que são lançadas no mundo em completo desamparo e não conseguem construir suas vidas. São devorados pelo fogo do álcool que toma conta de suas memórias. Antes, lhes empresta uma memória construída em torno de quase cinzas. No final, o fogo é como um deus benevolente que consome seus filhos a partir do dentro de seus corpos. Como uma graça por haverem se embebido da água ardente. Podem pensar que fui cruel com meus personagens. Mas eu fui misericordioso.
3)Com este livro você passa a integrar a coleção Fora do Eixo, da editora Objetiva. Como é fazer literatura em Alagoas? Até que ponto viver fora do "eixo" pode influenciar na vida de um escritor?
Primeiro, uma correção. Nasci em Maceió, mas fui com onze anos para o Recife e vim para a Paraíba aos trinta anos, ensinar na UFPB. Eu faço literatura na Paraíba. Não vejo muita diferença em fazer literatura aqui ou em qualquer lugar do País. A diferença está na oportunidade de publicação. Mesmo assim, sei que nem todo escritor do “eixo” está dentro do “eixo”. O “eixo” é o mercado. Já apareceram algumas vozes classificando o meu texto como regionalista. Acho que esta questão está superada. De uma forma ou de outra, todos somos regionalistas. O escritor que conta as tramas de um quarteirão da avenida Paulista ou de uma favela do complexo do Alemão está, a seu modo, sendo regionalista. No final das contas, falamos todos de uma região virtual que nos habita e nos constrói. Ela é composta dos lugares em que vivemos, das pessoas que roçamos, dos livros que lemos, dos quadros que vimos, dos filmes ou novelas que vemos. Esta região nos acompanha e exige que falemos dela.
4) Literatura e psicanálise caminham juntas? Até onde você deixa o psicanalista interferir nos seus textos literários?
Comecei a escrever antes de me tornar psicanalista. Cometi poemas ainda menino. Mais tarde fui redator de propaganda, no Recife. Afiei meu texto a soldo. Aos poucos fui tentando o texto curto, uma crônica aqui, um conto ali, alguns texto inclassificáveis que teimavam em continuar poemas. Foi a psicanálise que cafetinou minha escritura. Meus textos acadêmicos são palatáveis, o que não quer dizer que sejam de fácil digestão. É natural que, ao saber que sou psicanalista, as pessoas procurem e achem no meu texto referências ao Édipo, à castração, etc. Mas até onde eu saiba, não procuro deliberadamente tratar de temas psicanalíticos. Mas como nada do que é humano é estranho à psicanálise, é natural que os personagens vivam certos temas visados pelo saber psicanalítico. Só não posso negar que minha forma específica de escuta, marcada por uma neutralidade benevolente, influencia o modo como permito que os personagens se expressem, como consigo sintonizar com seus sentimentos, numa espécie de identificação que aprendi a usar no consultório.
5)Quais são os escritores que você tem como referência? Se sente diretamente influenciado
por algum deles?
Tenho lacunas enormes na minha formação literária. Minha família não tinha tradição de leitura e tive que me virar sozinho. Mas lá em casa tinha uma coleção do Tesouro da Juventude que foi a minha salvação. Comecei com José Lins do Rego de quem tomei emprestado o imaginário rural. Pois sou um nordestino urbano do litoral, um caranguejo, como disse Gilberto Freire. Depois vieram Machado de Assis, Graciliano, Guimarães Rosa. Mário de Andrade quase todo e um pouco do Oswald. Tem os poetas, também os básicos. Bandeira, Vinicius, Drumond, Murilo Mendes. Enfim, o serviço militar obrigatório, e a passagem também obrigatória por Fernando Pessoa. Tem as mulheres também. Clarisse e Adélia. Li e leio o que me cai nas mãos. Thomas Mann, Günter Grass, Antonio Callado. Dos pernambucanos, além do texto de Gilberto Freire, tive muita influência de Hermilo Borba Filho. Passei um tempo querendo ser o João Ubaldo. Agora, o texto que mais me espantou foi o de Saramago. Li o “Memorial do convento” numa edição da Difel, muito antes dele se tornar famoso por aqui. Mais recentemente, ando encantado pela narrativa de Ítalo Calvino. Gostaria de ter a delicadeza dele. Mas não gostaria de ser tomado como epígono de ninguém.
6)Para o que você acha que serve a literatura? O que o ato de escrever significa para você?
Mesmo correndo o risco do lugar comum, acho que a literatura serve para nos tornar mais humanos. Lendo ou escrevendo, estamos exercitando certas possibilidades de ser que muitas vezes nos são inacessíveis no cotidiano. Sempre digo que sou bem melhor por escrito. Somos todos muito destabanados no calor da refrega. Escrevendo, somos mais cuidadosos com as palavras, temos tempo para medir sua densidade. Escrever, para mim, é me destilar.
domingo, 13 de dezembro de 2009
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Fora dos eixos

Ronaldo Monte, autor do romance "Memória do fogo", é psicanalista. Daí o dom, louco, de um de seus personagens, de ver as pessoas "por dentro". Daí o trabalho seguro, do romancista, com os complexos de Édipo e Eletra, que vemos em belos personagens como Massapê e Joana Darque. Daí, talvez, o prazer que nos proporciona sua escrita, no que nos passa sua visão sombria de um mundo "out of joint", como diz Hamlet, num texto luminoso. Freud era um grande escritor. Alguns livros dele, como "Psicopatologia da vida cotidiana", são excelentes realizações literárias. Ronaldo Monte, romancista, também herda do Dr. Ronaldo Monte o conhecimento da alma humana e a precisão no uso das palavras. "Pois este corpo de menina parece que não está dando mais em mim", diz - fascinantemente - uma de suas criaturas. "Se soubesse a palavra eriçado, estaria eriçado", o ficcionista diz, soberbamente, de outro vivente seu.
Somente alguém que convive com a Sombra de cada um de nós poderia dizer, com pleno conhecimento de causa, que "é cada vez mais feio o que vejo dentro das pessoas". Mas Ronaldo Monte faz, do relato do que vê, sua obra de arte, buscando, talvez, a sublimação do que vive em seu dia a dia, antes mesmo da aristotélica catarse de seus leitores. E o elemento essencial do instrumento que escolheu para isso, a palavra, ele a usa com brilho, criando um ambiente primitivo e místico, exacerbado pelo uso estratégico de orações do livro de São Cipriano, o que termina por dar ao seu trabalho um tom, frequentemente, de realismo mágico. "Tua mãe morreu de novo, menino. Vai chamar teu pai."
"Memória do fogo", apesar de suas poucas cento e vinte e três páginas, não tem pressa alguma de nos levar ao seu final. Avança lento, com estórias soltas que, aos poucos, vão se entrelaçando, até que tenhamos as sagas de seis homens e de uma mulher que se reúnem misteriosamente ao redor das chamas, cada um reconhecendo no outros os pares de seu sofrimento. O fogo, evidentemente, é o elemento que funde essas narrativas, como quando a donzela pobre - Joana Darque (nome da santa que morre na fogueira)- sonha com um homem que lhe dê um fogão a gás, ou quando entramos - no capítulo "Massapê" - na oficina do oleiro, onde uma leva de cerâmicas é trabalhada no forno.
Um livro estranho. Com material de primeira para discípulos e dissidentesde Freud. A Objetiva marcou um tento com sua série "Fora dos eixos". Marcou outro ao levar ao país mais esse rebento da nova literatura nordestina e, mais precisamente, paraibana.
domingo, 10 de fevereiro de 2008
A oficina no porão
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Desde há muito existe uma espécie de discriminação com o Regionalismo. E eu não tenho dúvidas: é mais uma estratégia de parte da crítica preconceituosa do sudeste para desqualificar um movimento que foi quem melhor respondeu aos anseios de se responder ao Brasil a partir do Brasil. Quem, depois de 1930, superou, em termos de qualidade, a ficção brasileira de 1930? Guimarães Rosa? Mas, o próprio Rosa se abeberou, e muito, do regionalismo. No entanto, para muitos, o Regionalismo acabou. Acabou coisa nenhuma! Nenhum assunto se esgota, a não ser que não se tenha engenho e arte para se inovar, através do estilo, avesso a clichês, jargões e chavões.. E chego ao que eu quero: Ronaldo Monte. É regionalista? É. Mas de um regionalismo da alma que, ao fim e ao cabo, termina em se transformar universal.Existe uma história de Jung segundo a qual o homem tem medo do porão. E realmente tem, pois, afinal de contas, o porão é subterrâneo, é a ausência do sol, é um mundo impregnado de sombras, de objetos imprestáveis, heteróclitos, desencontrados, faltos de tudo e de todos.Daí, ainda segundo Jung, o homem preferir o sótão em função do seu medo, pois o sótão é o consciente, o mundo claro, solar, onde tudo é bem visível, previsível e definido.E tanto é assim que o próprio Jung arremata: "A consciência se comporta então como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar que aí não há ladrões e que, por conseqüência, o barulho era pura imaginação. Na realidade esse homem prudente não ousou aventurar-se ao porão".Em outras palavras, no sótão - reduto do consciente - o homem não só racionaliza os seus medos como cria mecanismos de defesa para melhor combater os seus fantasmas, fobias, neuroses e angústias, ao passo que no porão - reduto do inconsciente - a "racionalização é menos rápida e menos clara".Ronaldo Monte montou a sua oficina de escrever no porão. E, como bom e ousado psicanalista que é, escreveu a partir daí o excelente "Memória do fogo" (Editora Objetiva Ltda, Rio de Janeiro, 2006), cujos personagens, "Precocemente fracassados, perdidos em algum ponto do Nordeste Brasileiro - conforme bem o diz Rosa Amanda Strausz -, perderam-se também do fio que conduz à vida. Em volta do fogo, partilham apenas da cachaça, água que queima". Os estranhíssimos viventes de Ronaldo são sombras que só ardem e "brilham" ao pé das fogueiras acesas. E embora de carne e osso, parecem fantasmas saídos de um livro-porão: este "Memória do fogo", um dos grandes lançamentos do ano de 2006.
Jornal O Norte, 5 de outubro de 2006.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Morta

Morta, sim. Dona Mocinha sabia que aquela ali não vivia mais. Uma alma veio avisar a ela no meio de um cochilo que deu. Esperou o menino acordar e contou: dessa vez tua mãe morreu de verdade, menino. Vai acordar teu pai.
Espero que dessa vez seja pra sempre. Não agüentava mais essa mulher, com aqueles achaques, com aqueles desmaios, com aquela invenção de morrer de vez em quando para acordar depois de muito tempo como se nada tivesse acontecido. E não contava nada a mim, que era seu marido. Vinha do outro mundo sem novidade, sem ter visto um parente, sem um palpite pro jogo do bicho. Uma inutilidade cada morte daquela. Acho bom mesmo que tenha morrido. Assim me caso de novo com uma mais nova que cuide melhor de mim. Porque homem não pode viver sem mulher. E sem mulher eu já vivia por muito tempo. Quando não estava morta, era uma morta-viva. Mal fazia um café, mal cozinhava um feijão, mal lavava uma roupa, mal me servia na cama. Bom que tenha morrido. E esse caixão aqui é muito caro. Pra que caixão bonito? se no fim vai pro fundo da terra, onde ninguém vai ver. E se morreu mesmo, pra que passar a noite em claro no velório? Antes do fim da tarde mesmo eu enterro. Amanhã tenho que cortar lenha na mata e começar a procurar outra costela pra me esquentar.
E assim foi feito. A tarde mal se entregava às primeiras sombras e lá vinham eles do cemitério. A noite mal sorvia os últimos sangues da tarde quando entravam em casa. O pai para o quarto, mudar de roupa e sair para procurar moça. O filho para a rede onde morrera a mãe, para sentir pela última vez o cheiro dela. Dona Mocinha para a cozinha fazer café, beber uma caneca e deixar o bule esquentando nas brasas do fogão. Pegou a sacola com as suas coisas e foi embora sem falar palavra.
Dona Mocinha não dormiu direito. Ficou revirando na cama até o primeiro galo. Até ouvir a voz assustada de Darque contar: Vó, aquela mulher não morreu não, vó. Ela foi enterrada viva. Ela mesma veio me dizer agora mesmo. Disse que está virada de banda no caixão e que a gente avisasse ao povo dela. Dona Mocinha enfiou um vestido por cima da combinação com que havia dormido, prendeu os cabelos com uma marrafa e disparou para a casa dos parentes da morta, da enterrada viva, para que mandassem abrir o caixão. Podia ser que ainda encontrassem a defunta com vida.
Ainda de longe da casa da morta, a mulher foi gritando para quem pudesse ouvir: valha-nos Deus, acudam por Nossa Senhora. Que gritaria é essa? falou com raiva o viúvo. Quando Dona Mocinha contou o que tinha ouvido da neta, o homem baixou a vista, ficou calado um tempo e depois saiu andando ligeiro. O menino, esfregando os olhos de sono, foi atrás. Não foi junto do pai, pois tinha medo daquela cara cerrada e daquele passo apressado, de calcanhar fincado no chão. Meio de longe, viu o pai parar na porta do coveiro e mandar o homem lacrar com tijolo e cimento a cova da mulher. Dessa vez ela vai ficar morta para sempre. Nunca mais ninguém tira ela de lá.
O menino sentiu um gelo tomar conta do seu corpo. Parecia que ele agora ia morrer como a mãe. Mas não quis. Não deixou que a morte tomasse conta do seu corpo. Disparou na carreira, mas não, por ali não, por ali ia passar no cemitério. Voltou e embalou em direção à mata, os pés batendo na bunda de tanto que corria. Não olhou pra trás, não queria ver o pai, não queria mais ver aquele fim de mundo onde a mãe morria. Não sabia, nem pensava para onde ia. Correu até não agüentar a falta de ar no peito. Foi diminuindo a carreira, passou a andar com pressa, depois caminhou devagar até que só podia mesmo arrastar os pés. Então ele caiu sentado na beira da mata e chorou um choro pra ninguém. Era pra si mesmo que chorava. E era um choro bom que o botou pra dormir.
Imagem obtida em www.portinari.org.br
Espero que dessa vez seja pra sempre. Não agüentava mais essa mulher, com aqueles achaques, com aqueles desmaios, com aquela invenção de morrer de vez em quando para acordar depois de muito tempo como se nada tivesse acontecido. E não contava nada a mim, que era seu marido. Vinha do outro mundo sem novidade, sem ter visto um parente, sem um palpite pro jogo do bicho. Uma inutilidade cada morte daquela. Acho bom mesmo que tenha morrido. Assim me caso de novo com uma mais nova que cuide melhor de mim. Porque homem não pode viver sem mulher. E sem mulher eu já vivia por muito tempo. Quando não estava morta, era uma morta-viva. Mal fazia um café, mal cozinhava um feijão, mal lavava uma roupa, mal me servia na cama. Bom que tenha morrido. E esse caixão aqui é muito caro. Pra que caixão bonito? se no fim vai pro fundo da terra, onde ninguém vai ver. E se morreu mesmo, pra que passar a noite em claro no velório? Antes do fim da tarde mesmo eu enterro. Amanhã tenho que cortar lenha na mata e começar a procurar outra costela pra me esquentar.
E assim foi feito. A tarde mal se entregava às primeiras sombras e lá vinham eles do cemitério. A noite mal sorvia os últimos sangues da tarde quando entravam em casa. O pai para o quarto, mudar de roupa e sair para procurar moça. O filho para a rede onde morrera a mãe, para sentir pela última vez o cheiro dela. Dona Mocinha para a cozinha fazer café, beber uma caneca e deixar o bule esquentando nas brasas do fogão. Pegou a sacola com as suas coisas e foi embora sem falar palavra.
Dona Mocinha não dormiu direito. Ficou revirando na cama até o primeiro galo. Até ouvir a voz assustada de Darque contar: Vó, aquela mulher não morreu não, vó. Ela foi enterrada viva. Ela mesma veio me dizer agora mesmo. Disse que está virada de banda no caixão e que a gente avisasse ao povo dela. Dona Mocinha enfiou um vestido por cima da combinação com que havia dormido, prendeu os cabelos com uma marrafa e disparou para a casa dos parentes da morta, da enterrada viva, para que mandassem abrir o caixão. Podia ser que ainda encontrassem a defunta com vida.
Ainda de longe da casa da morta, a mulher foi gritando para quem pudesse ouvir: valha-nos Deus, acudam por Nossa Senhora. Que gritaria é essa? falou com raiva o viúvo. Quando Dona Mocinha contou o que tinha ouvido da neta, o homem baixou a vista, ficou calado um tempo e depois saiu andando ligeiro. O menino, esfregando os olhos de sono, foi atrás. Não foi junto do pai, pois tinha medo daquela cara cerrada e daquele passo apressado, de calcanhar fincado no chão. Meio de longe, viu o pai parar na porta do coveiro e mandar o homem lacrar com tijolo e cimento a cova da mulher. Dessa vez ela vai ficar morta para sempre. Nunca mais ninguém tira ela de lá.
O menino sentiu um gelo tomar conta do seu corpo. Parecia que ele agora ia morrer como a mãe. Mas não quis. Não deixou que a morte tomasse conta do seu corpo. Disparou na carreira, mas não, por ali não, por ali ia passar no cemitério. Voltou e embalou em direção à mata, os pés batendo na bunda de tanto que corria. Não olhou pra trás, não queria ver o pai, não queria mais ver aquele fim de mundo onde a mãe morria. Não sabia, nem pensava para onde ia. Correu até não agüentar a falta de ar no peito. Foi diminuindo a carreira, passou a andar com pressa, depois caminhou devagar até que só podia mesmo arrastar os pés. Então ele caiu sentado na beira da mata e chorou um choro pra ninguém. Era pra si mesmo que chorava. E era um choro bom que o botou pra dormir.
Imagem obtida em www.portinari.org.br
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
A (boa) literatura brasileira contemporânea
Há mais ou menos 10 segundos (são 22:59 no momento em que escrevo), tive um lampejo: tenho criticado bastante a literatura contemporânea brasileira, mas não tenho apontado - ao menos não aqui, diretamente - nomes que valem a pena ser lidos e conhecidos.
Faço isso indireramente, resenhando bons livros por aí. E a grande maioria das resenhas está publicada no Digestivo Cultural.
Mas como o teor dos últimos posts está um tanto birrento, resolvi indicar alguns nomes para quem tiver algum interesse em ler literatura brasileira contemporânea de qualidade. Indicarei o nome do autor e um livro dele, ok?
Charles Kiefer - “Valsa para Bruno Stein” (romance)Menalton Braff - “A coleira no pescoço” (contos)Mayrant Gallo - “O inédito de Kafka” (contos)Flávio Moreira da Costa - “Livramento” (poesias)Viviane Mosé - “Desato” (poesias)Paulo Bentancur - “A solidão do diabo” (contos)Sidney Garambone - “Eu, Deus” (romance)Diter Stein - “Brilho de sangue” (contos)Sérgio Rodrigues - “As sementes de Flowerville” (romance)Edward Pimenta - “O homem que não gostava de beijos” (contos)Ronaldo Monte - “Memória do fogo” (romance)
Foi o que pude lembrar aqui, de improviso. Todos autores e livros acima de qualquer suspeita. Alguns mais densos que outros, outros mais divertidos que alguns, mas todos de excelente qualidade.
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Rosa Amanda Strausz: a prosa de Ronaldo Monte

Cinco homens e uma mulher se reúnem em torno da fogueira. O mesmo gesto repetido há milênios pela humanidade. Ao fogo entregamos nossas indagações e perplexidades. Das chamas partilhadas saíram nossas crenças e mitos, nossa história e nosso conhecimento. Para os seis que ali se reúnem, no entanto, não existe grandiosidade. Nem esperança. São jovens, mas não conseguiram atravessar a ponte que separa a infância da vida adulta. Precocemente fracassados, perdidos em algum ponto do Nordeste brasileiro, perderam-se também do fio que conduz a vida. Em volta do fogo, partilham apenas a cachaça, a água que queima.
É para a miséria humana que se dirige a atenção de Ronaldo Monte em sue romance de estréia. Para as dores que atravessam o tempo e permanecem inexplicáveis. Para o sofrimento exaustivamente investigado por filósofos, poetas, cientistas, e jamais compreendido.
A prosa de Ronaldo Monte mistura a psicanálise e o catimbó, a filosofia e a tradição oral, o erudito e o popular, numa surpreendente teia de relações. Na Memória do Fogo, tudo arde – a começar pelo olhar do autor, que constrói amorosamente suas personagens, como se todas fizessem parte de uma mesma irmandade. E é nela que nos envolvemos ao iniciar a leitura. Como que hipnotizados pela luminosidade de uma fogueira primitiva, como que também embriagados pelo poder da palavra do romancista.
É para a miséria humana que se dirige a atenção de Ronaldo Monte em sue romance de estréia. Para as dores que atravessam o tempo e permanecem inexplicáveis. Para o sofrimento exaustivamente investigado por filósofos, poetas, cientistas, e jamais compreendido.
A prosa de Ronaldo Monte mistura a psicanálise e o catimbó, a filosofia e a tradição oral, o erudito e o popular, numa surpreendente teia de relações. Na Memória do Fogo, tudo arde – a começar pelo olhar do autor, que constrói amorosamente suas personagens, como se todas fizessem parte de uma mesma irmandade. E é nela que nos envolvemos ao iniciar a leitura. Como que hipnotizados pela luminosidade de uma fogueira primitiva, como que também embriagados pelo poder da palavra do romancista.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Sérgio Rodrigues: Ronaldo Monte: ‘Memória do fogo’
“Memória do fogo” (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou “O vôo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende, e “Voláteis”, de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, “buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo”. O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do “eixo” anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o resultado da coleção tem sido mais que animador. “Memória do fogo” não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.
Leia mais em Todo Prosa 24/06/06 12:01 AM
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